Club&Casa Design em Inhotim: uma imersão entre patrimônio, arte e design
Grupo de arquitetos gaúcho explora a riqueza arquitetônica e cultural de Minas Gerais em uma jornada voltada à expansão de repertório e soluções de projeto
Texto: Aline Fonseca

A arquitetura não se restringe às linhas de uma planta nem aos limites de um canteiro de obras. Ela se consolida no modo como o ser humano experimenta a cidade, a memória e a paisagem.
Entre os dias 31 de agosto e 3 de setembro de 2026, um grupo de arquitetos do Norte do Rio Grande do Sul vivenciou uma imersão técnica e cultural em Minas Gerais. O objetivo superou o registro turístico: a expedição buscou investigar de que forma as escalas urbanas, os diálogos entre passado e presente e a integração com a natureza constroem o repertório de quem projeta o espaço.
Cidade como espaço de investigação
Belo Horizonte apresentou-se ao grupo como um laboratório a céu aberto, onde a cidade deixa de ser mero cenário para se tornar agente de aprendizado.
Ao caminhar pelas ruas da capital e observar seu relevo recortado, o grupo pôde analisar como a arquitetura ajuda a contar a história e a consolidar a identidade cultural de Minas Gerais — uma trajetória pautada pela preservação da memória e pela busca do novo.
No horizonte da capital mineira, o patrimônio histórico e a arquitetura contemporânea dividem a paisagem de forma complementar. Os profissionais observaram o contraste e a continuidade entre o ecletismo do início do século XX e o modernismo assinado por Oscar Niemeyer no Conjunto Arquitetônico da Pampulha.


As curvas de concreto, os painéis de azulejaria e a permeabilidade dos edifícios modernistas demonstraram como a cidade desenha sua relação entre arquitetura, paisagismo e natureza, integrando as construções à topografia e à vegetação local.
Nas fachadas e volumetrias observadas ao longo do percurso, o grupo identificou elementos essenciais que definem a gramática da arquitetura mineira.
A materialidade dos edifícios revela uma paleta marcada por tons terrosos, pelo uso da pedra-sabão, da madeira, do concreto aparente, do vidro e do ferro — este último em referência direta à memória mineral do estado.
Detalhes construtivos como cobogós, brises-soleil e varandas generosas evidenciam soluções funcionais voltadas ao conforto térmico, reforçando a escala humana na relação dos edifícios com a paisagem urbana.
Essa transição entre exterior e interior ficou evidente em paradas da gastronomia local, como o restaurante Olga Nur. No projeto, a conexão direta entre a calçada e o ambiente interno traduz o hábito mineiro de acolher na rua. Enquanto a fachada dialoga com o fluxo do bairro, o design interior utiliza materiais brutos — vergalhões de construção, vidro e tons escuros — coroados por um teto esculpido com quase 80 mil pendentes de madeira.
A estrutura cria uma “topografia invertida” sobre o salão, demonstrando como elementos da construção civil podem ser ressignificados em composições contemporâneas de forte apelo visual e espacial.
Inhotim: a convergência entre escala, arte e natureza
No Instituto Inhotim, em Brumadinho, o grupo aprofundou a análise sobre a relação entre o edificado e o meio natural. Distribuído por cerca de 140 hectares entre a Mata Atlântica e o Cerrado, o complexo botânico e de arte contemporânea expôs como os projetos de implantação de pavilhões e galerias podem dialogar com o entorno.
Ao observar trabalhos de nomes como Adriana Varejão, Lygia Pape e Tunga inseridos na paisagem projetada por Burle Marx, os arquitetos puderam analisar:
Implantação e Escala: como os edifícios acompanham os contornos do terreno sem anular a presença da vegetação nativa.
Luz e Materialidade: o uso da luz natural e de materiais brutos para criar uma transição sutil entre o espaço expositivo fechado e os jardins externos.
Percurso Sensorial: o caminhamento tratado como ferramenta de projeto, onde o trajeto do visitante integra a narrativa espacial.







CASACOR Minas Gerais: a tradução contemporânea do morar
A visita à 31ª edição da CASACOR Minas Gerais completou a jornada. Sob o tema “De Mente a Coração”, os 40 ambientes da mostra ofereceram ao grupo uma visão atualizada sobre interiores, paisagismo e soluções construtivas.
A observação técnica permitiu estabelecer pontes diretas entre a tradição mineira e as novas tecnologias do morar. Soluções de conforto térmico, o uso ressignificado de matérias-primas locais e a busca por espaços de refúgio traduziram tendências que unem estética, funcionalidade e bem-estar.





Repertório na prática profissional
A imersão promovida pelo Club&Casa Design reforçou a importância do intercâmbio regional para o desenvolvimento do design e da arquitetura no país.
Ao vivenciar o patrimônio e a produção contemporânea de Minas Gerais, os profissionais do Norte do Rio Grande do Sul retornam com uma bagagem renovada por conceitos de territorialidade, sensibilidade espacial e integração com a paisagem, referências essenciais para a prática diária de projetos.