#Club&Casa Home – O sentido dos nomes: entrevista com Gerson de Oliveira e Luciana Martins, os criativos do estúdio ,Ovo
A dupla de designers do estúdio ,Ovo capricha no batismo de suas criações, pois acredita que
isso reforça a identidade das peças e estreita laços com os usuários.
.
Texto: Angela Villarrubia
Fotos: Gui Gomes (retrato) / Ruy Teixeira / Divulgação
O interesse pelas artes visuais em geral sempre acompanhou Luciana Martins e Gerson de Oliveira, dupla criativa do estúdio ,Ovo, que se conheceu ao estudar cinema na Escola de Comunicações e Artes da USP, na década de 1990. Curiosamente, nunca assinaram um filme (até o momento), mas foi naquele período da vida que começaram a atuar como designers, quase que instintivamente. Luciana, que adora fotografar, chegou a ser assistente de Romulo Fialdini. Gerson teve aulas de desenho e gravura. Ao fazer um curso livre de escultura em metal, Gerson acredita que o caminho começou a ser traçado. Sua primeira criação foi uma faca, enquanto Luciana concebeu uma luminária. Ambas as peças ainda existem e fazem parte de seu acervo pessoal. O primeiro trabalho conjunto foi uma agenda com capa de metal. “O tipo da coisa que só gente muito inexperiente faria. Tivemos que alugar máquinas. Acho que foi a coisa mais difícil que fizemos até hoje. Ou quase”, diz Luciana, bem-humorada.
Eles fundaram o estúdio em 1991. “Resolvemos que era isso o que queríamos da vida e começamos a nos instrumentalizar. Fizemos juntos um curso de desenho técnico. Com régua paralela, prancheta… coisas que as gerações atuais não conhecem mais”, diz Gerson. Luciana ainda fez estágio em uma marcenaria e ele em uma metalúrgica. Foram experiências determinantes em suas carreiras. E tudo isto ocorreu rapidamente, no lapso de um ano. Mas foi somente em 2002 que nasceu a atual denominação do estúdio. “Como nos alimentamos muito de outros territórios, queríamos um nome que remetesse a outro universo.
No caso, o da culinária. Mas há vários motivos. Há uma ideia de síntese, tanto na palavra quanto na forma. E é uma forma simples, mas não óbvia. Nosso trabalho está muito em cima desse pressuposto”, revela Luciana. “É uma palavra fácil de ser pronunciada em todas as línguas e tem um caráter um pouco mítico e sagrado”, complementa. Também pode ser o início de tudo… ou não! Afinal, quem vem primeiro, o ovo ou a galinha? “A vírgula traz outros elementos, da linguagem escrita e da temporalidade. Como já trabalhávamos há um tempão, ela indica que houve coisas antes”, conta Luciana. A dupla igualmente capricha no batismo de suas peças.
Alguns exemplos são a poltrona Cadê (“escondida” sob um tecido), os saborosos cabides de parede Huevos Revueltos (“ovos mexidos”, em português) e a luminária Estação da Luz (em forma de trenzinho), entre muitos outros. “Logo no começo fomos atraídos pela ideia de que o nome seria importante para
estreitar o laço com o usuário. Você estabelece um vínculo no momento em que desperta uma outra camada de leitura. Isso é potente no design”, confidencia Gerson.
Em seus processos criativos, os profissionais comentam que naturalmente há produtos de elaboração mais prazerosa, e outras, mais árduas. “Mas fico feliz quando olho para tudo e vejo sentido. Há fases nas quais estamos atraídos por algum aspecto ou material”, diz Gerson. Atualmente, eles, que são donos de um considerável catálogo, estão mais voltados para o uso da madeira. Porém, em outros momentos, trabalharam bastante com o aço, por exemplo. A multiplicidade de matérias-primas é uma característica de suas realizações. “Para nós, faz sentido essa pluralidade, inclusive das técnicas. É o que nos atrai e com a qual nos identificamos. Vemos assim a nossa linguagem”, finalizam.